O escritor argentino Julio Cortázar amava o jazz: a “música que permite todas as imaginações”.
OJM Jazz Lovers é um projecto da Orquestra Jazz de Matosinhos que desafia as convenções de um mundo dominado pelas emoções imediatas e efémeras. Parte do jazz, da paixão pelo jazz que fazemos, e franqueia as portas à criatividade e a todas as interacções deste género musical com outras artes e formas de expressão artística, da fotografia à literatura, do vídeo à ilustração. Sob a forma de uma revista digital que pretende explicar, contextualizar, reflectir e sugerir pistas de exploração, a OJM Jazz Lovers assume a condição de compêndio informal e abrangente da música que fazemos. Esta é, pois, a casa de todas as nossas imaginações.

O futuro do jazz

Estamos debaixo do chão, sob o cavalo de Troia que domina o complexo do Centre de la Musica de Barcelona, mas a conversa de camarim que ocupa Carlos Azevedo, José Pedro Coelho e Mark Turner voa alto e não tem limites. Falam de buracos negros, deslocações no tempo e viagens à velocidade da luz. Enquanto dialogam, é quase possível escutar a impossível música das esferas. “O universo é tão vasto, tão imenso, e nós estamos a viajar a grande velocidade num vazio infinito”, diz o saxofonista norte-americano que dali a poucas horas subirá ao palco da sala 2 do L’Auditori com a Orquestra Jazz de Matosinhos, para um dos concertos integrados na imensa programação do 47º Voll-Damm Festival Internacional de Jazz de Barcelona.

 

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Manuel Jorge Marmelo
Autor

Manuel Jorge Marmelo nasceu em 1971, no Porto. É autor de mais de duas dezenas de livros, entre os quais se incluem os romances “Aonde o Vento Me Levar”, “As Sereias do Mindelo”, “Somos Todos Um Bocado Ciganos”, “O Tempo Morto É Um Bom Lugar” e “Macaco Infinito”. Conquistou, em 2005, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco com o livro “O Silêncio de Um Homem Só”, e em 2014, o Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d’Escritas, com o romance “Uma Mentira Mil Vezes Repetida”.

fotografia de Pedro Lobo
vídeo de Luís Araújo

Por um qualquer sortilégio cósmico, MarkTurner fala muito pouco e apenas se torna prolixo quando sopra na palheta do sax tenor ou quando embarca na nave espacial de uma conversa sobre os mistérios do universo. É possível, pois, que Pedro Guedes, o maestro da OJM, tenha alguma razão quando diz que o saxofonista é, “garantidamente, uma voz do futuro do jazz”. Vendo-o tocar pouco depois, escutando como o sopro do seu saxofone adquire uma textura em que a melancolia e a fúria se misturam, não é difícil acreditar que Turner dialogue directamente com o cosmos, com o infinito e com o contínuo espaço-tempo onde passado, presente e futuro se dissolvem. Talvez Mark Turner seja, com efeito, um homem do futuro – do futuro do jazz ou de si mesmo – e que, embora o vejamos com os olhos, ele não esteja sequer entre nós, na mesma dimensão, e seja apenas uma vaga presença de uma realidade transtemporal a que só as matemáticas e a música acedem.

Enquanto aguarda pelo início do concerto no L’Auditori, para o qual a OJM preparou um novo repertório que tocará esta noite pela primeira vez, Mark Turner fica quase o tempo todo imóvel, de pé diante do pequeno piano desafinado que tem no camarim, percutindo nas teclas de marfim notas soltas do que talvez seja o futuro do jazz ou apenas outra coisa qualquer, uma conversa com alienígenas ou a reprodução exacta do ruído do cosmos. Impressiona a absoluta concentração do saxofonista sobre o piano, indiferente a quem transita diante da porta, aos ruídos que os outros músicos fazem ao passar de um lado para o outro e até à presença de uma equipa de televisão que espera para entrevistá-lo (mas que teme interromper e quebrar a corrente das notas que os dedos de Turner produzem no piano desafinado).

Regressado pouco depois à Terra, ao mundo dos comuns, o norte-americano nascido em Fairborne, no Ohio, explicará a seu modo (quase monocórdico, quase exasperando a jornalista) que não é o cavalo de Tróia do futuro deixado à porta da big-band de Matosinhos. Dirá que lhe agrada (voltar a) tocar com a OJM precisamente porque “as composições de Carlos Azevedo e Pedro Guedes são singulares, contemporâneas, com uma sonoridade muito diferente das outras big-bands” – e pouco mais.

Ora a contemporaneidade, sabemo-lo, não é apenas um mergulho acrítico no presente. Ser contemporâneo, ou estar contemporâneo, implica um desfasamento relativamente ao presente ou, conforme defendeu Friedrich Nietzsche, um anacronismo que permite perceber e apreender melhor o seu tempo. Giorgio Agamben completou: contemporâneo é aquele que não se deixa cegar pelas luzes do século e que “é capaz de distinguir nelas a parte da sombra, a sua íntima escuridão”, mantendo o olhar na luz da estrelas que, viajando pelas galáxias a uma velocidade superior à da luz, permite apenas “chegar pontualmente a um encontro ao qual só é possível faltar”.

A contemporaneidade de Agamben assemelha-se, assim, a uma espécie de antevisão do futuro: uma infinita e insensata viagem em direcção ao impossível objectivo que só se conhecerá (ou não) no momento da chegada. Ocorre-me que existe uma relação necessária entre o que escreveu o filósofo italiano e a casual conversa de Mark Turner, Carlos Azevedo e José Pedro Coelho no camarim subterrâneo. Talvez, com a inconsciência própria daqueles que já ultrapassaram o presente e ainda o não sabem, os três músicos estivessem antecipando aquilo que no futuro próximo das oito e meia da noite se escutaria no L’Auditori de Barcelona: um concerto que foi uma comunhão entre pares e o vislumbre de uma espécie de abismo sobre o desconhecido que o jazz deve ser. Um mergulho no futuro, portanto, por muito que o futuro, tal como a luz das estrelas, esteja constantemente a ficar mais e mais distante.

Fosse como fosse, os ingredientes que ferveriam no caldeirão da imponderabilidade pareciam estar rigorosamente alinhados. Depois de cerca de uma década dedicada a projectos colaborativos, a Orquestra Jazz de Matosinhos tinha pela frente dois concertos com dois gigantes do jazz mundial, para os quais preparara um repertório original com novas composições especialmente pensadas para os dois solistas que a acompanhariam, os saxofonistas Mark Turner e Chris Cheek. Os dois nomes são, por si só, galácticos – ao menos no sentido que o futebol concedeu à expressão quando um grande número de craques da bola se reuniu na equipa do Real Madrid. E a marca contemporânea da OJM prometia constituir o sistema táctico perfeito para essa viagem pelo vazio infinito da noite e do jazz, pelo imenso potencial que há nas coisas que ainda estão para acontecer.

Para o concerto de Barcelona, e para aquele que, duas semanas depois, juntou a OJM e Chris Cheek na Casa da Música do Porto, Carlos Azevedo compôs “XXL2”, título que remete, desde logo, para a muito muito grande dimensão das coisas cósmicas e para a vastidão imensa do universo, onde as explosões de luz do passado só poderão ser vistas daqui a muito tempo. No início do processo, confessa Azevedo, havia apenas a grande tuba para a qual compôs o primeiro rascunho deste “XXL2”. Entre o rudimento e a versão tocada em Barcelona, a música levedou, expandiu-se, agregou elementos e ganhou corpo, de forma a explorar, acrescenta Azevedo, a “grande versatilidade” de um instrumentista como Mark Turner.

Enquanto escutava “XXL2” sentado na penúltima fila do L’Auditori, vieram-me à memória as versões distópicas do futuro que o escritor Ernesto Bolaño engendrou, a harmonia caótica que se desprende dos seus textos e que transmite ao leitor a sensação de que está à beira de aceder a uma qualquer verdade fundamental. Depois, quando o sax de Turner e a guitarra de André Fernandes começaram a dialogar num solo borbulhante e cósmico, o universo pareceu regressar nos eixos. Ainda não sabia o que viria a ser este texto, mas escutei distintamente o início de uma cosmogonia pitagórica e a músicas das esferas enunciada pela terceira lei de Kepler cruzando-se com uma nova teoria das cordas produzida pela guitarra de Fernandes.

Se não era a gravitação quântica descrita por certos físicos, o que se escutou em Barcelona foi, ao menos, uma espécie de futuro possível do jazz, o improviso absoluto de dois músicos em vertigem criativa – um desses “momentos de verdade”, de exposição total, que Pedro Guedes considera “clarificadores”. Eis o jazz (à mesma hora a que, do outro lado do mundo, em Guadalajara, no México, o escritor barcelonês Enrique Vila-Matas recebia o mais importante prémio literário ibero-americano e proferia um discurso que tinha por título “O Futuro”).

Meses depois deste momento de enlevo e levitação, uma entrevista do escritor de Barcelona num jornal argentino recordou-me algo de que já não me lembrava (e de que não podia ter-me esquecido): no romance “Dublinesca”, de 2010, Vila-Matas inventou um concerto produzido por músicos “que seriam como um eco da última orquestra do Titanic e que combinam instrumentos de corda com guitarras eléctricas”. “Talvez – acrescentava o narrador desse livro – aquilo que esses músicos interpretem seja o desfigurado jazz do futuro, se calhar um estilo híbrido que algum dia haverá de chamar-se Marienbad eléctrico”.

Recordo agora, por isso, as palavras de Pedro Guedes minutos antes do concerto de Barcelona: “Nunca sabemos o que vai acontecer num concerto de jazz”. Di-lo e não parece o maestro de um eco da orquestra do Titanic, nem se assemelha à imagem mental automática que crio de um especialista em Marienbad eléctrico. A frase ressoa, todavia, de um modo inquietante, como se fosse misteriosamente capaz de sintetizar o processo de produção deste texto e descrevesse não só o milagre laico que permitiu escutar “XXL2” na noite de Barcelona, mas também a sucessão de coincidências necessárias para que o futuro do jazz fosse ganhando forma escrita – desde logo o facto de ter lido a notícia do discurso de Vila-Matas na manhã seguinte à do concerto, no átrio do hotel da Gran Via de las Cortes Catalanas onde a Orquestra Jazz de Matosinhos se alojou.

Fantasias à parte, antes do mágico “XXL2” de Barcelona já se tinha escutado “Sargaço”, um clássico da OJM a que Mark Turner emprestou uma vivacidade trepidante (mais tarde corroborada, no encore, pelo inédito e galáctico solo de saxofone e guitarra que o norte-americano engendrou com André Fernandes), e a estreia mundial de “Farol”, a nova composição de Carlos Azevedo que homenageia a luminária de Leça da Palmeira. “Começa com um ambiente nebuloso e soturno”, descreve o pianista. “Há o silêncio do mar e as batidas do coração. Por trás tem um conceito filosófico, a ideia da procura de um farol, de uma luz de orientação”, diz. Escuta-se, vêem-se gaivotas rondando a torre da Boa Nova e sente-se a impressão nítida do infinito breve de um passeio de domingo à tarde. Mark Turner ergue-se para o solo e move os dedos tensos e vivos como cordas de um piano, exacto e concreto como a luz de um farol destacando-se no negrume, mais brilhante entre as estrelas do firmamento.

Depois deste encontro com a luz e de “XXL2”, o concerto de Barcelona levantou voo e ergueu-se no ar como a cápsula alada de um space shutle entrando em órbita, rumo ao poente imponderável do desconhecido. Fosse por estarmos mergulhados no futuro e no sortilégio das estrelas, ou por outro motivo qualquer, também “Skylark” (o arranjo de Pedro Guedes para o clássico de Hoagy Carmichael, de 1941) soou infinito e belo, melancólico como o voo da cotovia ou a saudade de uma galáxia distante. Cada sopro da orquestra no sítio certo, o solo contido e preciso do sax de Turner criando os intervalos de silêncio e luz por onde a maravilha penetra e espanta.

Em Barcelona, como quinze dias depois, na Casa da Música do Porto, escutou-se ainda “BJO”, uma pequena maravilha que Carlos Azevedo compôs em 2008 para a Brussels Jazz Orquestra e que agora, com o novo arranjo feito para saxofone, adquire uma feição de absoluto virtuosismo que talvez a condene, um dia, a ser um clássico do jazz. Escuta-se e a melodia rapidamente se entranha: parece a banda sonora ideal para um épico regresso de uma jornada pelas estrelas, a que o diálogo entre o piano de Azevedo e o sax de Chris Cheek acrescentaram, no Porto, um momento de puro êxtase.

“Há nas composições do Carlos Azevedo e do Pedro Guedes elementos do jazz tradicional, mas, por outro lado, a música parece muito moderna, fresca. De certa forma, e se excluirmos a instrumentação, trata-se de uma música atípica para uma big band, muito original, muito diferente, interessante e desafiadora. É uma oportunidade para me elevar a um outro nível”, diz Chris Cheek no intervalo de um ensaio no subterrâneo da Casa da Música.

Enquanto termina de tomar o café, Cheek continua: “Ritmicamente e harmonicamente, a proposta da OJM é pouco usual. E isso é excitante. Alarga as fronteiras”. Talvez seja fixação minha, mas a frase remete-me outra vez para a infinita vastidão do cosmos e para o impossível caminho rumo à “final frontier” e ao ficcional planeta da paz galáctica, para uma versão do futuro que, se calhar, está já ao virar da esquina: Chris Cheek desce as escadas para a sala de ensaios 2 da Casa da Música do Porto onde, daí a nada, acontecerá uma espécie de futuro do jazz em acção.

Quando, no concerto de Barcelona, soaram os primeiros acordes da estreia mundial de “Peça em Peças”, a OJM já estava em levitação desde o extraordinário momento proporcionado pela interpretação de “XXL2”. Outra vez de pé, deixado a sós com a bateria de Marcos Cavaleiro, Mark Turner toca “Tenso” e “Vento” como uma lenda ou um oráculo em ligação directa com o mistério do jazz. Flecte os joelhos de um modo que faz lembrar o movimento dos pugilistas ao trocarem o peso de um pé para o outro. Penso, por isso, em Julio Cortázar, nos contos de Julio Cortázar em que aparecem personagens como o pugilista Ciclón Molina ou Johnny Carter, o saxofonista, descalçando os sapatos no estúdio de gravação e modificando o tempo enquanto toca, vivendo e pensando quinze minutos de cada vez que passa um minuto e meio nos relógios das pessoas normais.

De algum modo, um solista em cerimónia de improviso adquire também uma relação diferente com o tempo. Cada nota há-de ser percepcionada antecipadamente na sua relação com os demais instrumentos da orquestra, se calhar apenas um milésimo de segundo antes de ser interpretada. Um solista de jazz é, assim, uma espécie de adivinho, um oficiante ou demiurgo do futuro próximo. Do mesmo modo, “Peça em Peças”, de Pedro Guedes, vai também transformar-se numa espécie de futuro em marcha.

Duas semanas antes, sentado numa mesa da esplanada que há junto ao cavalo de Troia do Centre de la Musica de Barcelona, Pedro Guedes explicava que ainda só tinha prontas duas das peças da composição, a segunda e a terceira: “Tenso” e “Vento”. “Tem a ver com o tempo presente, com a fricção de ideias diferentes e a tensão que este confronto necessário gera. O vento vem no fim para varrer tudo”, diz. Depois percute o dedo indicador direito na testa e diz que a primeira parte, “Agitação”, não está escrita, mas está dentro da cabeça. “Está aqui”, diz – e é impossível não pensar que Guedes guardava na cabeça um pedaço do futuro do jazz.

Uma breve viagem no tempo permite, pois, que se saltem duas semanas no instante de uma mudança de linha. Estamos na sala de ensaios 2 da Casa da Música do Porto e Pedro Guedes inicia o primeiro ensaio do arranque de “Peça em Peças”, “Agitação”. Ainda a apalpar, o maestro rege as “harmonias esquisitas” e pede aos trombones que criem a sensação de um “coro operático”, “quase soviético”, que transmita a ideia da movimentação das massas.

Quando anuncia, dois dias depois, na sala Guilhermina Suggia da Casa da Música, a estreia mundial da versão completa de “Peças em Peças”, Pedro Guedes tem finalmente pronta a sua obra, o seu pedaço de futuro. A orquestra cresce sobre a batida forte da secção rítmica, o melódico e endiabrado saxofone de Chris Cheek criando a brisa que conduzirá à revoada final que talvez seja a síntese possível do processo dialético de que resulta aquilo que há-de ser. Escrevo-o e recordo os versos do poeta brasileiro Paulo Leminski que acabei de escutar nesse pedaço de poesia e futuro que é a rubrica radiofónica “Sinais”, de Fernando Alves: “Depois de hoje/a vida não vai mais ser a mesma/a menos que eu insista em me enganar”.

Indiferente ao meu provável equívoco, o concerto da Casa da Música terminou com um arranjo soberbo para o clássico “Lady Chatterley’s Mother”, de Al Cohn, com os metais e o sax barítono de Cheek swingando a todo o vapor. O jazz estava evidentemente em festa – se calhar por ter entrevisto ali alguma coisa do seu futuro.